Florence Owens e os filhos, clicados por Dorothea Lange durante a Grande Depressão: uma imagem que mudou a história

A fotografia que mudou o mundo e a que ainda não foi feita

Por Evaldo Costa

Publicado em Cultura | 22/04/2021

Numa tarde março de 1934, duas mulheres se encontraram em um terreno baldio no litoral da Califórnia. Da interação entre elas surgiu uma obra de arte destas que marcam eras, mobilizam pessoas e mudam o mundo. É uma fotografia bela como uma tela de um grande mestre, uma Mona Lisa sem motivo para sorrir.

As tais mulheres tinham idades na casa dos trinta anos, mas estavam em momentos muito diferentes da vida. A mais velha, Dorothea Lange, nascida em 1895, trabalhava para o governo e portava máquinas fotográficas. A mais jovem, Florence Owens, nascida em 1902, estava desempregada e tinha cinco filhos que, naquele dia, haviam comido apenas frutos silvestres catados na beira da estrada.

Dorothea Lange, uma das maiores fotógrafas da história

O tal terreno baldio era um acampamento mantido pelo governo americano em Nipomo, cidade distante 265 quilômetros de Los Angeles. O lugar fora uma fazenda de ervilha mas, na época, não era mais do que um terreno reservado para reunir pessoas que migravam em busca de algo para amenizar a fome. 

A Grande Depressão Econômica, iniciada em 1929, avançava pela década seguinte, causando muita dor e sofrimento. Dezenas de milhares de empresas deixaram de existir e empresários falidos suicidaram-se, pulando de altos edifícios. 

Mas foi sobre pessoas pobres, como Florence, que a derrocada das bolsas e da economia mundial produziu os efeitos mais devastadores. Tanto que a mais efetiva e mais urgente ação que se podia adotar era distribuir comida para milhões de famélicos nos quatro cantos da América.

Dorothea Lange, formada em Belas Artes, casada com um professor universitário e mãe de dois filhos, era dona de um estúdio em São Francisco, no qual fazia retratos por encomenda.

Acabou sendo contratada pelo Governo Federal americano para documentar aqueles momentos terríveis da Depressão. Dirigindo seu próprio carro, ela chegou despretensiosamente ao acampamento onde Florence e os filhos viviam sob uma lona precária. 

“Quando a vi, fui atraída como se houvesse um ímã. Não lembro se me apresentei ou expliquei o que fazia. Só perguntei a idade dela, me aproximei e comecei a clicar cada vez mais de perto”, relatou ela em entrevista reproduzida no livro “Migrant Mother: How a Photograph Defined the Great Depression”, de Don Nardo (Compass Point Books, Minneapolis, MN, 2011).

E o retrato de Florence abraçada aos filhos – “A Mãe Migrante” –, olhos perdidos no horizonte, rosto marcado por fundas rugas precoces, fez aquilo que o título do livro diz em inglês: se tornou a mais poderosa denúncia da miséria causada pela Grande Depressão. Anos depois, foi classificada como uma das cem imagens que mais mudaram a História. Impossível ficar indiferente. E, pra quem podia, impossível não agir.

O presidente americano, Franklin Roosevelt, inspirado pelo economista John Maynard Keynes, criou uma política, que batizou de “New Deal”, o novo pacto, focada na geração de empregos e na proteção social. 

Dessa forma, investimentos públicos, maciços, foram destinados à construção de estradas, escolas, pontes, hospitais, o que gerou milhões de empregos para a mão de obra de baixa qualificação. Foi implantado um rigoroso controle de preço e de produção, para evitar superprodução na agricultura e na indústria. Também foi nesta época que foi criado o salário mínimo, e a jornada de trabalho foi reduzida, a fim de gerar mais empregos. 

O resultado é conhecido e a fórmula, mais do que testada e aprovada.  

E o Brasil?

Por que não pode ser ativado no Brasil das crises econômicas e da Covid um programa como aquele do New Deal dos anos 1930 que, ao socorrer os mais fragilizados, recuperou a economia e devolveu a prosperidade ao mundo?

Desde 2013 estamos vivendo uma grande crise mundial. O Brasil está mergulhado nela de forma ainda mais dramática, porque sofremos com outras crises que desabaram sobre nós, em cascata. A crise política que levou ao impeachment de Dilma Roussef (2015) interrompeu investimentos públicos e privados e com isso afetou duramente a economia. E quando se pensava que esta fase passara, veio a pandemia com os desdobramentos que conhecemos. 

Dados recentes apontam que o desemprego no país afeta 17% de nossa força de trabalho. Note-se que este indicador exclui o grande número de trabalhadores que desistiram de procurar emprego, entregues à depressão e ao desespero. São os desalentados. 

“Florences” se movem entre os carros nos sinais fechados com olhos mortiços, cartazes de papelão improvisados e mãos estendidas clamando por ajuda. Por que ninguém ainda se dedicou a recolher estas imagens? Por que permanecem invisíveis?

E há outra pergunta no ar: por que não pode ser ativado no Brasil das crises econômicas e da Covid um programa como aquele do New Deal dos anos 1930 que, ao socorrer os mais fragilizados, recuperou a economia e devolveu a prosperidade ao mundo?  Deu certo no passado, como daria hoje. 

Mas esta pergunta é fácil demais de ser respondida. Joe Biden, o atual presidente americano já está colocando em prática o seu new deal. Um pacote trilionário para vacinar TODA a população, reativar a economia e recuperar a credibilidade dos Estados Unidos no mundo.

Diferentemente, o presidente da República Federativa do Brasil parece buscar objetivos opostos a estes.

Evaldo Costa

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Evaldo Costa é jornalista

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Uma resposta para “A fotografia que mudou o mundo e a que ainda não foi feita”

  1. Avatar Vânia Luiza de Lira Silva disse:

    Parabéns por reportar e nos trazer à tona a realidade de milhões de brasileiros que sucumbem à miséria cotidiana assim como Clarence e seus filhos que já nascem deserdados e condenados a sarjeta social resultado do capitalismo selvagem e hoje à mercê de um genocida.
    Registro aqui o meu respeito pelo Jornalista que você é.
    Salve! Salve! Evaldo Costa.

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