A que ponto chegamos…

Por Tarcisio Patricio e Roberto Alves

Publicado em Economia e negócios | 13/04/2021

Para uma economia que – desde 1981 – combina recessão, estagnação, pingos de crescimento, desindustrialização e produtividade padrão tartaruga, o presente não poderia ser mais desolador. Os bicudos tempos atuais pegam um Brasil que tenta superar decênios de atraso. Há urgência de inovação institucional (em educação, meio ambiente, direitos civis, segurança social). Mas, a conjunção ‘Covid-19 e má governança’ sufoca. Já se pode passar, ao final de abril, da tétrica marca de 400 mil óbitos. Muitas vidas poderiam ter sido preservadas, houvesse ação eficiente coordenada pelo Governo Federal – com participação de governadores e prefeitos – no combate à Covid-19. A verdade é que o sistema de saúde colapsou e pacientes morrem sem atendimento médico – inimaginável caos. E a vacinação segue lenta. Responsabilidades há, natural que sejam investigadas. Estranho é o frenesi nervoso face a tal possibilidade.

E qual o foco do Governo Federal neste momento? Com manobras do presidente do Senado, vêm aí decretos que ampliam significativamente o acesso a armas de fogo e munições de diversos tipos e calibres. Veja-se: nos EUA, busca-se enfrentar a insana liberdade de porte de armas (inclusive de guerra) – reconhecido o decorrente dano social; no Brasil, portarias de controle e rastreamento de armas, instituídas no âmbito do Exército, foram anuladas pelo presente governo. Os novos decretos deverão, vapt-vupt, entrar em vigor hoje. Vírus não se combate a tiros – o que se pretende combater?

Pois é. Depois de queda, coices. Eis que nos chega um ‘mimo’: “Entidades médicas definem critérios para triagem de pacientes em UTIs diante de colapso” [Folha de SP, 09/04/2021]. Impossível dar racionalidade e “ética” à escolha entre quem vive e quem morre, sufocado. Diz-se: o modelo de triagem “utiliza dados relativos à gravidade do quadro agudo do paciente, a presença de doenças avançadas e ao estado de saúde física” … “a idade dos doentes não é utilizada como critério único de triagem”. Lógica ferida: doenças avançadas e comorbidades são, em geral, vinculadas a maior idade e velhice, o real critério definidor.

O presidente da Associação Médica Brasileira diz que que assim se dá transparência a prática adotada em hospitais. Ah, sim: ‘a população pode ficar tranquila’, há um método de escolha dos premiados com o escasso recurso da UTI – aqueles com maior chance de sobrevida – e dos que morrerão sem atendimento adequado. E ao ‘quase morto’ ainda não premiado é oferecida a chance de participar de novas rodadas de triagem. Cruel escárnio. A que ponto chegamos…

Tarcisio Patricio e Roberto Alves

Tarcisio Patricio e Roberto Alves

Tarcisio Patricio e Roberto Alves são professores aposentados da UFPE. Este artigo foi publicado originalmente na edição do JC de 27/04/2021.

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Uma resposta para “A que ponto chegamos…”

  1. Avatar Maria de Fátima Duques disse:

    Falta só artigo lembrar que, de 1981 para cá, tivemos um período
    (queira-se ou não) em que saímos do mapa da fome, para o que caminhamos a passos largos, não só pela Covid19. Isso por mais que se queira abafar volta à tona internacionalmente. E também que muitas entidades médicas, a começar pelo Conselho Federal de Medicina, deram respaldo ao presidente nas suas condutas anti-ciência. Há que se dar nome aos bois. Mais da metade do povo brasileiro escolheu pelo voto o que temos agora. Está na hora de ao menos resgatar parte do que perdemos para o novo poder chegar. Sem isso,não sairemos tão cedo desse pântano em que estamos.

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