Gilberto Freyre e Getúlio Vargas: adversários num tempo em que presidentes admiravam escritores

De: Gilberto Freyre. Para: Getúlio Vargas

Por Evaldo Costa

Publicado em Cultura | 05/04/2021

As relações do sociólogo Gilberto Freyre com o poder político sempre foram polêmicas, e até hoje é lembrado, e criticado, seu apoio declarado à ditadura militar de 1964. Este seu lado quase nos faz esquecer que, nos anos 1930 e 1940, Freyre foi um dos líderes da resistência à ditadura Vargas em Pernambuco, enfrentando de peito aberto os homens fortes do chamado Estado Novo, Agamenon Magalhães e Etelvino Lins. 

 Freyre combateu tanto Vargas que foi retaliado com a demissão da Universidade do Rio de Janeiro, onde era professor. Foi até preso. Dizia, em conversas privadas, que a bala que matou Demócrito de Souza Filho era, na verdade, dirigida a ele. O assassinato do estudante, quando participava de um evento pela redemocratização  na sacada do Diario de Pernambuco, em 1945, foi um dos estopins para a queda do regime.

Freyre combateu tanto Vargas que foi retaliado com a demissão da Universidade do Rio de Janeiro, onde era professor. Foi até preso. Dizia, em conversas privadas, que a bala que matou Demócrito de Souza Filho era, na verdade, dirigida a ele.

Bom, mas quando foi publicada a edição francesa de Casa-Grande & Senzala, em 1953, Getúlio Vargas ficou interessado em adquirir o livro. Freyre soube do interesse e enviou um exemplarjunto com uma dedicatória sutil: “A Getúlio Vargas, não o estadista, mas o outro, igualmente admirável”. Vargas gostou das palavras e mostrou isso enviando um telegrama de agradecimento: “Para Gilberto Freyre, não o político, mas o outro, igualmente admirável”. 

 Este episódio merece ser relembrado por pelo menos três razões. A primeira é que as novas gerações precisam ser informadas de que houve um tempo no Brasil no qual o Presidente da República admirava escritores, tinha interesse por livros – e lia! Aliás, não lia apenas em português; compreendia textos em francês! Outro aspecto interessante a destacar é que, naquele tempo,  adversários políticos duros podiam se confraternizar, celebrando uma conquista brasileira, como era a publicação no estrangeiro de Casa Grande…, considerado uma das mais importantes interpretações do país.

Por fim, é extremamente necessário destacar o outro lado desta história, o lado triste, constrangedor e inquietante. Pois, se já soubemos divergir com civilidade e colocar o principal acima do acessório; se já fomos capazes de entender a produção cultural como essencial para a afirmação dos valores nacionais, está mais do que na hora de voltarmos a respeitar diferenças, praticar o diálogo e o entendimento e afirmar o primado da democracia e dos direitos humanos. Afinal, quem já foi exemplo positivo para o mundo, não pode seguir sendo motivo de chacota.

Evaldo Costa

Evaldo Costa

Evaldo Costa é jornalista

Ver todos os artigos de Evaldo Costa

Uma resposta para “De: Gilberto Freyre. Para: Getúlio Vargas”

  1. Avatar Ruy Sarinho disse:

    Muito bom, com a Marca Evaldo Costa.

Comente este artigo

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *