Felicidade: uma invenção do neoliberalismo?

Por Spencer Júnior

Publicado em Ciência | 25/07/2021

A felicidade, como o maior fetiche do imaginário social da pós modernidade, não é a solução para a vida humana nos tempos atuais, é a grande problemática nos moldes contemporâneos. As tecnologias do eu e suas práticas e suas narrativas têm como centralidade um psicologismo subornado pelas Leis de Mercado que subsidiam a autorrealização do indivíduo e das políticas públicas do Estado.

Mas o mais vergonhoso é que a hodierna produção psicométrica e esdrúxulas teorias de suposto “caráter científico”, que superestimam o império do “eu”, não passam de pura mercadoria camuflada em jogos de verdade (articulação entre os saberes econômicos e os Psi), jogos de poder (assunção das lógicas de governo) e jogos de subjetivação (vetor pessoal do indivíduo com ele mesmo), todos patrocinados pela razão neoliberal.

Alguns ramos da psicologia, com seu excesso de positividade, se tornaram as novas colônias da Península Ibérica do neoliberalismo. Como bem já pressentia Foucault: “a felicidade dos indivíduos seja uma necessidade de sobrevivência e desenvolvimento do Estado”.

O novo Prometeu pós-moderno, os psicologismos subornados, capitaneado pela Psicologia Positiva, assegura a felicidade como seu maior significante medular, atraindo os incautos para a infantilização existencial com seus discursos simplistas das ciclópicas questões da humanidade. Não é mais o homem a medida de todas as coisas, mas a felicidade. A felicidade passou a ser mais importante do que a vida.

De uma simples matriz, como produto do progresso da razão humana na era iluminista, a felicidade vem sofrendo mudanças em sua gramática na inserção do modelo neoliberal que flecha o coração da sociedade com a implantação de políticas públicas voltadas para o bem–estar subjetivo e satisfação pessoal com a vida. Sob o domínio do Estado democrático de Direito, a felicidade se contorce como uma biopolítica de mensurações técnicas e controle social, disfarçados na condição de estratégia de marketing estatal e instituições privadas interessadas mercantilmente no maior produto da história humana desde a criação do Paraíso Celeste. Sob o comando estatal com políticas públicas destinadas ao bem-estar individual e coletivo corrobora a relevância da felicidade em nossos tempos.

A felicidade passou a ser mais importante do que a vida. De uma simples matriz, como produto do progresso da razão humana na era iluminista, a felicidade vem sofrendo mudanças em sua gramática na inserção do modelo neoliberal que flecha o coração da sociedade

O Estado e as ciências econômicas não bastariam como indicadores de desenvolvimento e de vetor político social, mister outro jogo de verdade para alimentar o poder estatal com base científica. O discurso científico afere a matriz estatal e a racionalidade neoliberal. Com isto a Psicologia Positiva surge como o novo Iluminismo que calcularia, adentraria e potencializaria o psiquismo humano, gerando as condições do autogoverno individual com o desiderato de que cada sujeito se autoempresaria para a consecução do maior feito de uma existência humana. A Psicologia Positiva suprime o Páthos e o trágico, inerentes à condição humana, pelo uso da vontade e da razão pessoal, se inspirando em seu tabuleiro de técnicas “Poliannas” para alcançar a felicidade duradoura.

Como veremos a Psicologia Positiva tem como escopo ético que o sujeito, se ocupando de ser feliz e focando em seu bem-estar, tudo mais virá como consequência. Axioma bíblico: Buscai o Reino de Deus e tudo mais se sucederá. Essa é a metafísica da felicidade que a Psicologia Positiva propõe. Nesse ponto há a convergência com a perspectiva neoliberal. A pessoa se automodela, se autoempresaria, dependendo apenas dela e muito menos das contingências da vida. Tanto a razão e o domínio de si, preconizados pela Psicologia Positiva e pela a razão neoliberal, se concentram na força superior do indivíduo, sobre a sua própria natureza e sobre a vida como um todo. Confluindo os eixos da racionalidade neoliberal capitaneada pelo Estado através de suas políticas públicas, os quais se respaldam no eixo científico do psicologismo subornado, que produzem modos de subjetivação através da sujeição aos discursos e práticas de alto teor de convencimento, mas não menos alienante, percebemos uma montagem híbrida e macabra que seduz e devora os fracos de espírito.

Tudo não passa de uma tecnologia de governo a serviço do mercado, que em níveis do sujeito pessoal como das instituições de agenciamento de identidade, são urdidas para o controle da população. Mais do que uma biopolítica, seria uma psicopolítica. No final da cadeia alimentar desses processos surge uma nova subjetivação com sua respectiva sujeição. O “ sujeito feliz” é um ser individualizado, autoexplorador e empreendedor, sob o destino de reinvenção constante de si mesmo. A Psicologia Positiva e seus ideais de “sujeito feliz” burlam as psicologias profundas por simplificar a complexidade do psiquismo humano quando o reduz a uma mera performance de comportamentos. A Psicologia Positiva é uma variante anímica do vírus do neoliberalismo e fomenta o mesmo tipo de sujeito com sujeição às suas doutrinações neurotizantes.

A Psicologia Positiva e Neoliberalismo criam pessoas para a felicidade e não felicidade para as pessoas. Desse modo, a passagem do sujeito econômico da tradição capitalista para o “ sujeito feliz” psicologizado do neoliberalismo, retira o indivíduo de uma percepção mecânica de si para uma aparente autogestão plástica de ampla liberdade, uma vez que tudo depende dele. Inaugura-se, com a migração do objeto da economia para o sujeito da psicologia, uma subjetividade romantizada.

Ou seja, a pessoa pensa que é livre e que depende só dela as suas conquistas, através da realização de protocolos de felicidade; o seu sucesso nas múltiplas dimensões do existir humano está assegurado pelo seu esforço empreendedor. Não basta empreender para sobreviver, tem que se empreender sobre si mesmo para ser feliz. Assim sendo, podemos inferir que a Psicologia Positiva e o neoliberalismo, sob os interesses de um estado democrático, mas com cores de um regime totalitarista, por exercer um certo controle social na produção de novas subjetividades narcotizadas sob o encanto da política do bem-estar social, inauguram a utopia da felicidade sob os moldes de um novo disciplinamento, de uma sociedade medicalizada e alienada, com um disfarce de um funcionamento de saúde mental, mas no final que homogeneiza. “O neoliberalismo (discurso de poder) e a Psicologia Positiva (discurso de verdade) forjam uma subjetividade organizada pelo imperativo do gozo, isto é, da felicidade, mas que nunca se consolida. Isto porque, a ideia metafísica do gozo duradouro não coaduna com o fluxo mutante da existência humana, gerando sempre desníveis e afetos frustrantes por parte de seus praticantes.

Ortega Y Gasset: “o ato de pensar no homem não é um dom, mas aquisição laboriosa, precária e volátil”

A perspectiva da condição humana no neoliberalismo mata o que Ortega Y Gasset chamava de “ensimesmamento” e gera a “alteração” das mentes incautas. Para o filósofo espanhol, “o ato de pensar no homem não é um dom, mas aquisição laboriosa, precária e volátil.” Nessa abordagem o homem não tem uma substância pronta pré-destinada onde o “conhece-te a ti mesmo” não bastaria, pois obedece à uma metafísica do pensamento onde a sua subjetividade reina sobre a sua natureza e o mundo na apreensão de uma essência. O ente é uma invenção de si surfando sobre as contingências. E mais ainda, se poderia pensar que a substância do homem é pura contingência.

“O homem é a onda buscando o oceano; uma flutuação no impermanente”

O ser humano é o seu pensamento cultivado em ensimesmamento (vida contemplativa) e convertido em ação no mundo (vida ativa); é um estar sendo, postulado por Píndaro no axioma: “Torna-te quem tu és”. Desse modo o homem e a mulher é drama, vestido da elegância da incerteza e do charme do perigo. Pura termodinâmica entrópica, portanto, distópica. O homem é a onda buscando o oceano; uma flutuação no impermanente. Portanto, corre o risco constante do homem e da mulher de nunca serem eles mesmos. Mas esse homem e essa mulher só existem quando se assumem na condição de sua singularidade que se forja nos eventos da vida e na formação de sua verdade própria. “Torna-te quem tu és” é a admissão de um sujeito nos eventos que a vida impõe, sem um saber prévio como que viesse de uma essência e um fundamento estanque. Em toda psicologia há uma biologia. Gene e meme se alternam sob uma orquestração desordenada, porque insuficiente, da consciência humana. Assim sendo, só há singularidade porque há eventos, um tornar-se sempre. A felicidade negativa do Antifeliz (considere o termo como uma dialética à felicidade neoliberal), existe para quem aceita sua originalização no sujeito quem deve ser e na resistência seletiva dos eventos que não coadunam com o seu ensimesmamento.

Saber que pode se tornar um sujeito, em meio aos jogos de alienação da própria felicidade neoliberal, em fidelidade ao tornar-se quem deve ser, usando a liberdade como regra de disciplina, se trata da felicidade negativa do Antifeliz. O ser Antifeliz é saber se fazer sujeito original e não objeto da felicidade neoliberal. Voltando à Ortega y Gasset, na sua descrição do ensimesmamento e alteração, postula: “são três momentos diferentes que ciclicamente se repetem ao longo da história humana: 1- o homem se sente perdido, naufragado nas coisas; é a alteração. 2- O homem, como enérgico esforço, se recolhe à sua intimidade para formar ideias sobre as coisas e seu possível domínio; é o ensimesmamento. 3- o homem torna a submergir no mundo para atuar nele conforme um projeto; é a ação, a práxis.”

O ensimesmamento é para formar um projeto no mundo que coadune seu estar sendo para a sua realização. Mas na alteração, fruto de uma alienação mercantilista e de uma realização antecipada como consumo, o ensimesmanento, ou seja, a possibilidade de alinhar seu projeto com um mundo que exige dele muitas vezes não ser ele mesmo, o afasta dessa concretização com a existência própria. No que concerne a alteração, ou seja, o naufrágio, a total impossibilidade realizadora de um projeto que venha do mergulho em si, uma vez que foi abduzido pela Deusa felicidade do neoliberalismo.

O homem e a mulher, sendo drama, usa a distração e não o ensimesmamento, para viver o sublime do horror que é ser. A distração surge como sintoma da alteração. A felicidade neoliberal vem como a grande distração da alteração. Por isso parto da ideia que não é quando se estar feliz que produzimos bem, mas quando sabemos lidar bem com as emoções difíceis, dentre elas a angústia. A angústia é nosso estado natural e não a felicidade. A angústia nunca pode ser vencida, mas ela pode ser direcionada para impulsionar essas forças. Na felicidade negativa de um ser Antifeliz a angústia é o fundamento do ser e não o desejo de ser feliz que subordina o ser humano ao projeto neoliberal.

Como diz Alain Badiou: “A felicidade não é feita para pessoas divertidas – , certa dose de desespero é a condição para a felicidade real.”

Spencer Júnior

Spencer Júnior

Spencer Júnior é psicólogo, escritor e professor da Faculdade de Ciências
Médicas da Universidade de Pernambuco. Preceptor da Residência em
Psiquiatria do Hospital Oswaldo Cruz, também é especialista em Psicologia Clínica, mestre em Psicologia Clínica, doutor em Neuropsiquiatria e pós-doutor em Ciências da Saúde.
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Uma resposta para “Felicidade: uma invenção do neoliberalismo?”

  1. Avatar Teresinha Augusta Carvalho disse:

    Muito bom e oportuno a provocação do psicólogo Spencer , colocando sua cara a tapa a escolástica psicologia positiva que serve ao neoliberalismodo SESC. XXI, quando tenta construir um novo indivíduo responsavelpela sua felicidade e , está tornando a nova utopia social!

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