"Retrato do Papa Paulo III com dois netos": obra de Ticiano sintetiza relações familiares do líder da Contrarreforma

Os papas Paulo III, Francisco e o tempo das mudanças

Por Evaldo Costa

Publicado em Cultura | 09/05/2021

Tanto a prática quanto a crítica ao nepotismo têm origem na Igreja Católica, e estão diretamente conectadas à questão do celibato.  

Desde o Papa Ciríaco, em 386, a Igreja tenta de todas as formas impor a regra do celibato a frades, freiras, padres, ou seja, a todos que desejassem seguir carreira eclesiástica. 

Mas nunca foi fácil. Às vezes discretamente, outras nem tanto, párocos, bispos e até os próprios papas acabavam usando o poder de que dispunham para arranjar posições vantajosas para parentes. Era frequente papas nomearem sobrinhos (nepos em latim, de onde surgiu a expressão nepotismo) para postos de cardeal, sem que fossem minimamente qualificados para tanto. 

Um bom exemplo destes desvios foi dado por Paulo III, papa entre 3 de outubro de 1534 e 10 de novembro de 1549, sem dúvida, um dos maiores da história, líder que deixou marcas profundas na instituição – tanto positivas quanto negativas. 

Foi, para não ir muito longe, um homem com uma vida sexual extremamente movimentada na juventude. Teve cinco filhos (três homens e duas mulheres) com Silvia Ruffini, e os criou com desvelo, construindo patrimônio e patrocinando a inserção social de todos eles.

 Chegou a nomear dois adolescentes para postos de cardeal, um com apenas 14 anos e outro com 16, os quais eram, simplesmente, seus netos… A relação de Paulo III com a família é sintetizada na tela de Ticiano Retrato do Papa Paulo III com dois netos, que pode ser contemplada no Museo di Capodimonte, Nápoles.

Paulo III reinou em uma encruzilhada histórica, tempo de grandes mudanças. Contemporâneo de Lutero, coube a ele liderar a chamada Contrarreforma, convocando o Concílio de Trento. Foi este conclave que refundou e ampliou o poder da inquisição, consolidou o dogma do celibato, determinou a evangelização dos índios das Américas e acabou a política de venda de indulgências, ponto forte do discurso dos protestantes.

Ou seja, o papa libertino e nepotista conduziu uma revolução fundada, principalmente, na correção dos costumes, na ortodoxia da fé e na ampliação da cristandade. Fez isso porque a instituição precisava de mudanças urgentes para sobreviver e, logo que possível, expandir. E porque era ele que, naquele momento, ocupava o trono de Pedro.

Francisco é um papa ousado. É, talvez, um dos mais corajosos de sempre. Ele tem sido um sopro de modernização e de correção de rumos na Igreja, reconhecendo práticas nefastas e denunciando e combatendo, por exemplo, a pedofilia

A situação é parecida com a do Papa Francisco, hoje. Francisco tem sido pressionado de fora para dentro e, com mais força ainda, dentro da própria Igreja. Pressões em sentidos opostos. Por um lado, há cada vez mais fortes anseios por democracia, transparência, empatia e correção na conduta pública. Contrariamente, setores conservadores, que tomam como referência o papa emérito Bento XVI, o chamam de comunista e tentam refrear seu ímpeto renovador.

Enquanto isso, multidões entorpecidas e miserabilizadas se tornam presas fáceis para seitas neopentecostais, que se apoiam nos modernos meios de comunicação para arregimentar fiéis e arrancar recursos de quem quase nada tem.

E mais: estas mesmas seitas fazem alianças políticas com correntes populistas de extrema-direita e com elas crescem e se fortalecem mutuamente, manipulando a população e promovendo práticas atentatórias aos direitos humanos.

Enfrentar esta concorrência desleal e defender quem nem se vê como vítima exige cada vez gente preparada e dedicada. Exige sacrifício. A abolição do celibato – postulam os que defendem – aumentaria o interesse pela carreira eclesiástica e até a disposição de ex-padres que deixaram a igreja para casar e poderiam retornar aos altares.

Francisco é um papa ousado. É, talvez, um dos mais corajosos de sempre. Ele tem sido um sopro de modernização e de correção de rumos na Igreja, reconhecendo práticas nefastas e denunciando e combatendo, por exemplo, a pedofilia.

Em relação ao fim do celibato, porém, move-se com cautela. Explica que não se trata de uma regra de fé, ou seja, não tem relação com a crença e com Deus.  Define-a como “uma norma administrativa”, que foi criada há séculos para proteger a missão e o patrimônio  da Igreja, defendendo a instituição de pessoas que misturam o que é comum com o particular, o público com o privado. 

Pode-se discutir a eficácia da norma, não a necessidade de conduta ética exemplar para quem se propõe a liderar e inspirar. Era assim no papado de Paulo III, continua sendo nos dias de hoje.

Na Igreja e fora dela.

Evaldo Costa

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Evaldo Costa é jornalista

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