Sonho e pesadelo

Por Tarcisio Patricio de Araujo

Publicado em Economia e negócios | 25/05/2021

Minha memória insiste em resgatar uma imagem de Dodeskaden (O Caminho da Vida, de Akira Kurosawa), que vi no saudoso Cinema Coliseu, Estrada do Arraial, anos 1970 e então muito me impressionou. O chefe de uma família moradora de um lixão em Tóquio – realidade que, neste torto mundo, poderia ser indiana, brasileira, novaiorquina… – atolado em sujeira e escuridão, ele próprio um vivo composto da paisagem, sonha com uma fantástica e colorida mansão. Contraste sufocante, graças ao poder do cérebro humano no fazer arte.

Nesta indigesta quadra de hoje, país atolado em inédita crise econômica-social-sanitária, fantasio sobre a 3ª. via como opção eleitoral que anule repeteco da polarização de 2018. Compromisso com Democracia e união da sociedade em torno do objetivo de pavimentar a trilha que leve o país a deixar de ser campeão em perda de oportunidades e destruição de talentos, o que demandaria uma “revolução institucional” (no topo, reforma política e ampla, irrestrita reforma administrativa).

Uma matriz de inovação institucional que modernizasse o Estado e não penalizasse classes sociais desfavorecidas, apagando o anacrônico binômio desigualdade-pobreza. Propósito de governança que eliminasse a privatização do Estado (captado por interesses espúrios) e recuperasse o investimento público, pondo-se Saúde, Educação, Habitação e Saneamento na proa. Compromisso com responsabilidade fiscal e responsabilidade social na administração pública.

Mostrar à sociedade que é possível termos um Estado eficiente, com políticas públicas chegando a todos os recantos do país, e assegurando um ambiente de negócios favorável a impulsos empreendedores. E que privatização – associada a adequada regulação – é obviamente melhor que manutenção de estatais improdutivas, mera moeda de troca para arranjos políticos custeados por recursos públicos. Isso ajudaria à eliminação do compadrio no mundo dos negócios. Por quê um empresário do segmento de planos de saúde na direção da ANS? Recupere-se a boa ideia de agências reguladoras.

Tento sonhar, lá vem pesadelo. Mantida a trilha iniciada em 1981, e considerados desvios de percurso desde 2009-2010, sem inovação institucional este “país do futuro” pode vir a ser um imenso Rio de Janeiro. Pode até perder o maior ganho da era do Real, a moeda. Grande desafio, agigantado nos últimos 28 meses, na economia e na saúde.

Ao sabor do esforço de estados e municípios, o combate à COVID-19 segue sem coordenação central de um governo que sempre apostou na “natural” imunidade de rebanho, o que traria ao sistema de saúde horrendo caos e levaria o número de óbitos à casa de milhões. Pior: o próprio governo viola a legalidade de normas sanitárias – rotineira afronta. E, por leniência federal, o país carrega vergonhoso alcance, em mais de quatro meses, de mero 10% da população com vacinação concluída (duas doses), quando mais de 450 mil vidas já foram levadas pelo vírus. O efeito sanfona de intermitentes lockdowns traz impacto ainda mais danoso à economia, em contraste com situação – neste momento – muito melhor dos EUA, país que já se livrou (ainda não se sabe se para sempre) do negacionista de lá. O pior pode piorar: resposta a indagação nossa, neste mesmo site.

E aí recorro a Millôr (que se foi em 27/03/2012, sem viver as agruras de nossa última década perdida e do presente momento) e seu habitual humor cortante: “Se isso tudo não for um pesadelo, este país vai mal” (2008). Quanta atualidade… Infeliz Nação.

Tarcisio Patricio de Araujo

Tarcisio Patricio de Araujo

Tarcisio Patricio de Araujo é economista, PhD em Economia pelo University College London e professor da UFPE aposentado. Também ensinou na Unicap. Ocupou cargos de gestão na UFPE, no Governo Jarbas Vasconcelos (1999-2000), e na Fundaj – Coordenação Geral de Estudos Econômicos e Populacionais. É pesquisador e consultor, com publicações (livros e artigos) nas áreas de políticas públicas, educação, mercado de trabalho e agroecologia – entre outras. Trabalhos de pesquisa e consultoria para governos federal e estaduais, Banco Mundial, SUDENE, FIDA. Este artigo foi publicado originalmente no Jornal do Commercio.

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